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Antônio Carlos de Souza Higyno

Sobre o autor:

Antônio Carlos de Souza Higyno

Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.


E-Mail: hyginoantonio@bol.com.br

O voo da sabiá

Para Bia Hygino, com afeto.


Era manhã de domingo. Encontra-se ele em sua casa de campo.


Sentado numa poltrona, na varanda, contemplava a natureza.


No jardim, havia muitas flores. Um pé jamelão trazia-lhe doces lembranças do seu tempo de criança. Um pé de amora ofertava frutos dulcíssimos. O cajueiro de frutos sem igual. As goiabeiras, o pé cambucá, as mangueiras, o pé de jambo a colorir a terra de lilás. E o pé de seriguela…. os galhos arriavam cheios de frutos maduros. Do pé de carambola seus frutos transformavam-se num doce de estrelas. Havia muito mais…


Em meio àquele cenário, solenemente casais de pavão passeavam. Em harmonia viviam perus, patos, gansos e galos a cantar a melodia da alvorada, a qual repetiam ao longo dia. Os passarinhos entoavam doces melodias de amor.


Por entre os montes, um riacho serpenteava em direção ao oceano, fertilizando o solo à margem de seu leito.


Dentro de casa, Nide preparava um delicioso café da manhã que seria servido assim que todos estivessem sentados à mesa. Faltava apenas Bia, a filha dele que ainda se arruma. Estava acertada uma caminhada matinal pelas redondezas.


Em meio aquilo tudo e no aguardo do desjejum, observou uma sabiá a fazer voos rasteiros em sua direção, sobrevoando lhe a cabeça.


No galho de cambucá, outra sabiá atentamente a tudo observa.


Olhou para cima e viu um ninho feito no espaço entre o ripão e o telhado. Dentro dele dois ou três pássaros. Um deles ficou à beira do ninho. A sabiá alimentava os outros dois.


Ele ficou preocupado com a possibilidade de o pequenino cair e se machucar. A altura entre ninho e chão era de dois metros e meio, mais ou menos. Pensou em fazer qualquer coisa que impedisse o inevitável, mas preferiu não interceder.


De repente, o cheiro de café espalhou- se pelo ar e veio o chamado. Mesa posta, familiares sentados. Servido foi bolo de aipim, de tapioca e de milho. Mingau de milho verde, canjica e pão. Seu compadre e cunhado, se fartou.


Com o pensamento voltado para a sabiá, retornou à varanda. Para sua surpresa, no chão, viu aquele passarinho que estava à beira do ninho. Frágil, indefeso, penugem esparsa, tentando fazer curtos voos por dentro da varanda. Não se conteve. Delicadamente, buscando protegê- lo, conseguiu levá-lo de volta ao ninho. Os pais, desesperados, do cajueiro observavam interferência do bicho homem.


Um dele voou de onde se encontrava para o ninho e ficou como se a conservar com o seu filho. Todos presenciaram a cena.


Na varanda, ficaram por cerca duas horas na expectativa do que pudesse acontecer. Nada aconteceu, salvo as idas e vindas da sabiá sempre a alimentar seus filhotes.


Resolveram, então, fazer a caminhada, conforme combinado.


Quando do retorno, já por volta do meio dia, o pequenino estava fora do ninho, novamente no chão e com o mesmo propósito: voar.


Ele pensou em levá-lo de volta, como antes o fizera, mas seu cunhado o dissuadiu. Ponderou para que observassem junto o que ocorreria.


Então, fazendo pequenos voos conseguiu chegar ao pé de Cambucá. Do pé de Cambucá voou para o pé de seriguela. Daí, para o galho do cajueiro. Em seguida para a caramboleira. Nessa trajetória acompanhada foi, à distância, pelos pais. A certa altura foi deixado pelos seus pais e voou na imensidão do azul.


Ficou ele a pensar o que poderia acontecer ao pequenino pássaro, desde o badoque até a ação do predador natural. Nada, entretanto, podia fazer. O destino estava selado: voar. Tudo que pudesse ou que viesse a acontecer com aquele pássaro fazia parte ou faz parte dessa história que se chama vida.


Veio o almoço e descanso vespertino.


À noite, pirilampos faziam breves clarões e os grilos catavam em festa.


Logo de manhã retornaram à cidade.


Anos depois, perdido em seus pensamentos, sua filha, ainda adolescente, sem qualquer experiência de vida, veio ao seu encontro e lhe disse: pai, tenho uma surpresa. Qual? Questionou ele. Ela lhe respondeu com alegria contagiante: passei na seletiva do intercâmbio. Vou para Taiwan, país que fica ao sul da China. O Senhor deixa?


Naquele instante veio em sua mente um poema do incomparável Khail Gibran, “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.


Vêm através de vós, mas não de vós e embora vivam convosco, não vos pertencem”.


Lembrou-se, então, do voo da sabiá. Disfarçando com um sorriso o seu medo e não contendo a lágrima que rolava em seu rosto, abraçou-a afetuosamente, sem nada dizer.

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