Entrevista

O Grupo Direitos (sites e jornais DIREITOS  e O COMPASSO) entrevista a presidente da Academia Grapiúna de Artes e Letras – AGRAL, gestão 2025-2026, a  Profa. Dra. Plena da UESC/DFCH Josanne Francisca Morais Bezerra.

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Josanne Morais natural de Salvador-Bahia. É pedagoga e psicopedagoga pela Universidade Estadual de Santa Cruz (1994; 1996). É doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia (2005). É psicanalista pelo Instituto Teológico Gamaliel (Brasil – Receita Federal CNPJ 11.501.786/0001-47; USA – Receita Federal: 32-0605852 e Registro no Estado da Flórida: P19000054722). Na Universidade Estadual de Santa Cruz é professora Plena, lotada no Departamento de Filosofia e Ciências Humanas (DFCH) e compõe a Área de Conhecimento em Psicologia. Na UESC, desde 1996, na área pedagógica, trabalha em diversos cursos de Graduação e Pós-Graduação. Na área administrativa, foi diretora do Departamento do DFCH; na área acadêmica foi vice coordenadora do Curso de Especialização em Psicologia Social; coordenou a Área de Conhecimento em Psicologia; coordena vultuoso Projeto de Extensão ‘Implantação e Implementação e Arquivos e Museus’, no qual desenvolve e apresenta à comunidade regional temas de relevância social, educacional, cultural, histórica e política. É Presidente da Academia Grapiúna de Artes e Letras-AGRAL. Publicou, através da Via Litterarum, os livros: Professor e aluno motivado: isto faz a diferença (2007) e PROFESOR Y ALUMNO MOTIVADO: esto hace La diferencia, bilíngue português e espanhol (2008); 9 mulheres e 8 janelas: Quando vidas reservam silêncios (2012); Hozannah: Quantas linguagens cabem em uma mulher? (2013); “Um criador, muitas criaturas: Representações da mulher na obra musical de Chico Buarque” (2021); PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN:UMA ANÁLISE DOS OLHARES DA FAMÍLIA NO ESPELHO DA CONSTRUÇÃO COTIDIANA (2023); CONDUÇÃO DA ANÁLISE: Possíveis caminhos à luz de leituras Freudiana e Lacaniana (2025).

 

DIREITOS – Ao assumir a Presidência da Academia Grapiúna de Artes e Letras – AGRAL para o biênio 2025-2026, quais princípios orientaram sua gestão? 

Assumir a Presidência da AGRAL representou, para mim, muito mais do que ocupar um cargo administrativo. Significou receber, por determinado período, a responsabilidade de cuidar de uma instituição que possui história, identidade, memória e uma missão cultural construída antes de nós e destinada a prosseguir depois de nós.

Desde o início, compreendi que uma Academia não pertence a uma Presidência nem a uma Diretoria. Os cargos são transitórios; a Instituição permanece. Por isso, procurei conduzir a gestão 2025-2026 a partir de princípios que considero fundamentais: ética, diálogo, transparência, responsabilidade, participação, respeito à história institucional, valorização das pessoas e compromisso com a continuidade da AGRAL.

A ética esteve na base dessa compreensão. Exercer a Presidência exigia colocar os interesses institucionais acima de preferências pessoais, procurando agir com equilíbrio, coerência e consciência dos limites próprios da função. Nem todas as decisões são simples, nem sempre produzem unanimidade, mas considero indispensável que sejam tomadas tendo como referência a dignidade da Instituição e o respeito às pessoas que dela fazem parte.

Essa concepção também determinou a maneira como procurei compreender a autoridade. Para mim, a Presidência nunca deveria ser entendida como lugar de poder ou de propriedade sobre a Instituição, mas como lugar de serviço. O cargo não nos torna donos da Academia; atribui-nos, temporariamente, a responsabilidade de cuidar dela.

O diálogo foi igualmente essencial. Uma Academia reúne pessoas com diferentes trajetórias, formações, experiências, sensibilidades e modos de pensar, e essa pluralidade constitui uma de suas maiores riquezas. Por isso, procurei cultivar a escuta dos confrades e das confreiras, acolhendo sugestões, ponderações e divergências. Nem sempre haverá consenso, e isso faz parte da vida institucional. O importante é que as diferenças possam ser tratadas com respeito, serenidade e compromisso com aquilo que seja melhor para a AGRAL.

A transparência e a responsabilidade caminharam lado a lado. Sempre considerei importante que os membros pudessem acompanhar a vida da Academia, conhecer suas ações e compreender os caminhos percorridos pela gestão. A confiança institucional se fortalece quando existem clareza nos procedimentos, comunicação das decisões, respeito às normas e consciência de que cada escolha realizada no presente pode produzir consequências no futuro.

Outro princípio fundamental foi a participação. Uma Academia não pode ter sua vida concentrada na Presidência ou na Diretoria. Ela se fortalece quando seus membros encontram oportunidades concretas para contribuir com seus conhecimentos, experiências, talentos e iniciativas. Procurei, portanto, favorecer uma compreensão de pertencimento e corresponsabilidade, porque acredito que a história de uma instituição cultural se constrói coletivamente.

Esse princípio esteve diretamente relacionado à valorização das pessoas. Estatutos, cargos, documentos e solenidades são indispensáveis à organização institucional, mas uma Academia existe, sobretudo, por causa das pessoas que lhe dão vida. Cada confrade e cada confreira traz consigo uma trajetória intelectual, artística, profissional e humana singular, e reconhecer essas contribuições significa reconhecer o próprio patrimônio da AGRAL.

Ao mesmo tempo, sempre compreendi que a Academia não poderia existir apenas para si mesma. Sua missão exige abertura à sociedade, capacidade de diálogo e disposição para estabelecer relações com escritores, artistas, pesquisadores, educadores, estudantes e instituições. Uma Casa de Artes e Letras precisa preservar sua identidade sem se fechar ao mundo que a cerca.

O respeito à história institucional também orientou profundamente minha gestão. A AGRAL nasceu em 4 de abril de 2011, graças à iniciativa e ao idealismo de sete homens que acreditaram na importância de criar, em nossa região, uma instituição dedicada às artes, às letras, à cultura, ao conhecimento e à preservação de nossa identidade: Dr. Vercil Rodrigues; Jornalista Ramiro Aquino; Ilustre Washington Farias de Cerqueira; Prof. Antônio da Silva Costa, in memoriam; Dr. Jorge Ribeiro Carrilho, in memoriam; Dr. José Carlos Oliveira, in memoriam; e Dr. Ivann Krebs Montenegro, in memoriam.

Faço questão de registrar esses nomes porque nenhuma instituição deve perder a consciência de suas origens. Antes de existirem as realizações que hoje integram a história da AGRAL, existiram pessoas que acreditaram em uma ideia e tiveram a coragem de transformá-la em realidade.

Presidir uma instituição fundada e construída por outras pessoas exige, portanto, aquilo que gosto de chamar de humildade histórica. Não começamos uma história. Recebemos uma história. E recebê-la significa reconhecer aqueles que vieram antes de nós, respeitar aquilo que construíram e compreender que também somos responsáveis pela maneira como essa história será transmitida aos que virão depois.

Foi com essa consciência que procurei exercer a Presidência durante o biênio 2025-2026: não como proprietária de um tempo institucional, mas como alguém a quem foi confiado, temporariamente, o dever de cuidar de uma parte dessa trajetória.

Se eu pudesse sintetizar os princípios que orientaram essa caminhada, diria: ética nas decisões, diálogo nas relações, transparência nos procedimentos, responsabilidade nos atos, participação na construção coletiva, valorização das pessoas, respeito às raízes e compromisso com a continuidade da AGRAL.

Em outras palavras: respeito ao passado, responsabilidade no presente e compromisso com o futuro.

DIREITOS – Quais realizações a senhora considera mais significativas durante sua gestão? 

Tenho certa dificuldade em apontar uma única realização como a mais significativa, porque nunca compreendi a gestão 2025-2026 como uma sucessão de eventos isolados. Desde o início, procurei pensar a AGRAL a partir de um projeto institucional, no qual as diferentes ações pudessem dialogar entre si e contribuir para que a Academia permanecesse intelectualmente ativa, culturalmente presente e fiel à sua missão.

Dentro dessa perspectiva, considero particularmente importante o fortalecimento da vida acadêmica e da produção intelectual da Instituição.

Uma Academia de Artes e Letras precisa ser um espaço vivo de pensamento, criação, reflexão e circulação do conhecimento. Foi com esse propósito que procuramos fortalecer o Ciclo Permanente de Palestras da Academia Grapiúna de Artes e Letras, transformando-o em um espaço de encontro entre diferentes campos do saber e diferentes expressões da cultura.

Ao longo do biênio, a AGRAL recebeu escritores, professores, pesquisadores, historiadores, músicos, cineastas, artistas, educadores, juristas, poetas, teatrólogos e estudiosos de diversas áreas, que compartilharam conhecimentos, pesquisas, experiências e reflexões construídas ao longo de suas trajetórias.

Essa diversidade foi intencional. Sempre compreendi que uma Academia contemporânea não deve estabelecer fronteiras rígidas entre os saberes. A literatura pode dialogar com a história e com a filosofia; o cinema pode encontrar a literatura e a memória; o teatro pode aproximar-se da psicologia e da experiência humana; a música pode encontrar a poesia; a ciência pode conversar com a cultura; e a educação pode atravessar todos esses campos, criando possibilidades de formação e de transmissão do conhecimento.

Por essa razão, procuramos fazer com que nossas atividades não se limitassem ao modelo tradicional de uma conferência. Em diferentes ocasiões, as palestras foram acompanhadas por música, poesia, performances cênicas, apresentações de livros, cinema e outras manifestações artísticas. Desejávamos que cada encontro pudesse proporcionar não apenas informação, mas uma experiência de conhecimento, sensibilidade e convivência cultural.

Também considero muito significativa a presença de diferentes gerações nesses espaços. Ao lado de intelectuais e artistas com trajetórias amplamente consolidadas, procuramos acolher jovens, estudantes, novos escritores, músicos, atores e outros talentos em formação. Uma Academia precisa honrar aqueles que construíram caminhos, mas também deve saber reconhecer aqueles que começam a percorrê-los. A tradição somente permanece viva quando consegue dialogar com a renovação.

Outro aspecto que considero essencial foi a valorização da produção dos próprios confrades e confreiras.

Procuro estimular a participação dos membros da AGRAL na programação acadêmica, criando oportunidades para que apresentassem suas pesquisas, seus livros, suas experiências, seus estudos e suas produções artísticas e intelectuais. Da mesma forma, buscamos acompanhar e divulgar suas realizações fora da Academia: publicações, lançamentos de livros, conferências, pesquisas, premiações, homenagens, projetos culturais e participações em diferentes espaços da sociedade.

Sempre considero importante que a Academia conheça melhor aqueles que a constituem. Precisamos saber o que nossos confrades e nossas confreiras escrevem, pesquisam, produzem e realizam. Dar visibilidade a essas trajetórias não significa simplesmente promover realizações individuais; significa também documentar a produção intelectual e cultural da própria membresia e reconhecer que o maior patrimônio de uma Academia está nas pessoas que lhe dão vida.

Nesse mesmo espírito surgiu uma iniciativa pela qual tenho especial apreço: a série “Todas as Vozes- Entrevistas Autorais”.

O projeto nasceu de uma inquietação muito simples, mas profundamente importante: quantas histórias extraordinárias podem desaparecer porque ninguém se preocupou em registrá-las?

Escritores, professores, artistas, pesquisadores, educadores, intelectuais e agentes culturais acumulam, ao longo da vida, experiências que não estão necessariamente registradas nos livros ou nos documentos oficiais. Há lembranças, percursos, escolhas, dificuldades, encontros e conhecimentos que permanecem guardados na memória das pessoas. Quando essas vozes não são ouvidas e documentadas, uma parte importante da história pode desaparecer com elas.

Por isso, concebemos “Todas as Vozes – Entrevistas Autorais” não apenas como uma série de entrevistas, mas como uma iniciativa de documentação da memória intelectual e cultural contemporânea.

Cada pessoa convidada é chamada a falar sobre sua trajetória, suas experiências, sua produção, suas referências, seus desafios e sua relação com a cultura e com a sociedade. Nesse processo, a entrevista ultrapassa o caráter circunstancial da conversa e passa a constituir também um registro que poderá ser consultado no futuro.

E há uma característica do projeto que considero fundamental: “Todas as Vozes” não se restringe aos confrades e às confreiras da AGRAL. A série acolhe também pessoas externas à Academia cujas trajetórias possuem relevância cultural, artística, intelectual, científica, educacional ou social.

Essa abertura é coerente com a própria concepção que tenho de uma instituição cultural. A AGRAL deve conhecer e valorizar seus membros, mas não pode ouvir apenas a si mesma. Precisa estar atenta às pessoas que, mesmo não pertencendo formalmente aos seus quadros, ajudam a construir a história cultural e intelectual de nossa região.

O próprio nome “Todas as Vozes” procura expressar essa disposição para a escuta e para a pluralidade. Ouvir os nossos, mas também ouvir aqueles que estão além de nossos limites institucionais. Registrar trajetórias consolidadas, mas também reconhecer novas experiências. Aproximar gerações e permitir que diferentes percursos humanos encontrem espaço de expressão e preservação.

Meu desejo é que essa série tenha continuidade e possa, com o passar dos anos, constituir um acervo de depoimentos de interesse para estudantes, pesquisadores, historiadores e para todos aqueles que desejarem compreender determinados aspectos da vida intelectual e cultural do Sul da Bahia.

Quando olho, portanto, para as realizações da gestão, não vejo apenas palestras, apresentações, entrevistas ou atividades culturais. Vejo a tentativa de consolidar uma cultura acadêmica permanente, baseada na produção e na circulação do conhecimento, na pluralidade das ideias, no encontro entre diferentes linguagens, no diálogo entre gerações e na valorização das pessoas.

E talvez seja justamente isso que considero mais significativo: contribuir para que a AGRAL se afirme, cada vez mais, como uma comunidade intelectual viva, capaz de produzir conhecimento, acolher diferentes expressões da cultura, reconhecer a produção de seus membros, abrir espaço para outras vozes e transformar encontros do presente em referências que possam permanecer para o futuro.

DIREITOS – Por que a preservação da memória e a defesa do patrimônio histórico e cultural se tornaram eixos importantes da gestão? 

Sempre compreendi a memória como um dos patrimônios fundamentais de uma sociedade. Não se trata simplesmente de recordar acontecimentos do passado. A memória participa da construção da identidade, do sentimento de pertencimento e da compreensão que uma comunidade desenvolve acerca de si mesma.

Quando uma sociedade perde suas referências históricas, perde também parte das possibilidades de compreender o caminho que percorreu até chegar ao presente. Preservar a memória significa, portanto, cuidar de documentos, fotografias, edificações, obras, narrativas, lugares e personagens, mas significa também preservar os vínculos que permitem a diferentes gerações reconhecerem-se como parte de uma história comum.

Essa compreensão acompanha minha própria trajetória acadêmica e esteve muito presente na gestão 2025-2026. Sempre considerei que uma Academia de Artes e Letras não deve ocupar-se apenas da produção cultural de seu tempo. Ela possui também a responsabilidade de pesquisar, documentar, interpretar, valorizar e difundir o patrimônio histórico e cultural da região na qual está inserida.

Foi a partir dessa concepção que desenvolvemos diferentes ações relacionadas à história e à memória de Itabuna.

Por ocasião dos 115 anos de emancipação política do município, a AGRAL uniu esforços à Universidade Estadual de Santa Cruz- UESC, à Academia de Letras de Itabuna- ALITA e ao Centro Cultural Teosópolis- CCT, participando de uma programação que, sob o tema “Itabuna: Uma Cidade Centenária em Busca de Sua História”, procurou estimular um olhar mais atento para as edificações, os documentos, as fotografias, os personagens, as narrativas e os lugares que ajudam a compreender a formação histórica da cidade.

No ano seguinte, quando Itabuna completou 116 anos, essa reflexão teve continuidade e foi aprofundada no III Ciclo “Celebrando Itabuna”, a partir de uma pergunta deliberadamente provocadora: “Itabuna tem História?!”

Evidentemente, não se tratava de colocar em dúvida a existência da história da cidade. A pergunta pretendia inquietar e despertar outras indagações: que história conhecemos? Que história ensinamos? Que documentos preservamos? Quais lugares reconhecemos como patrimônio? Que personagens permanecem na memória coletiva? E quantas referências importantes já desapareceram sem que tivéssemos a oportunidade de documentá-las adequadamente?

Nesse contexto, adquiriu especial importância a exposição “Complexo Adami: Praça Otaciana Pinto, Praça Manoel Leal e Praça Siqueira Campos- Festa, Civismo e Política”, desenvolvida a partir de pesquisa histórica, documental e iconográfica, sob a curadoria da professora Dra. Plena Janete Ruiz de Macêdo e com a coordenação pedagógica que tive a honra de exercer.

O projeto possibilitou trabalhar a própria cidade como documento histórico. Praças e espaços urbanos, muitas vezes percebidos apenas como lugares de passagem ou de convivência cotidiana, passaram a ser observados como territórios nos quais festas, acontecimentos políticos, manifestações cívicas, transformações urbanísticas e experiências sociais deixaram suas marcas.

A participação dos estudantes conferiu a essa experiência uma dimensão especialmente importante. Quando um jovem aprende a observar historicamente a cidade em que vive, começa a compreender que patrimônio não é apenas aquilo que se encontra em museus ou nos grandes monumentos nacionais. Patrimônio pode estar na praça pela qual ele passa, na rua que percorre, na fotografia antiga de seu bairro, em uma edificação que vê diariamente sem conhecer sua história.

É nesse sentido que compreendo a educação patrimonial: antes de preservar, é preciso aprender a olhar. E, antes de defender aquilo que possui valor histórico, é necessário conhecer e compreender esse valor.

Mas houve também momentos em que preservar significou ir além da pesquisa e da educação. Significou posicionar-se publicamente.

Em 2025, a AGRAL esteve presente na Câmara Municipal de Vereadores de Itabuna, participando de uma mobilização em defesa do patrimônio histórico, cultural e arquitetônico da cidade, em um momento particularmente sensível, marcado pela demolição da Casa do Comendador Firmino Alves.

Aquele episódio provocou inquietação entre instituições, pesquisadores, escritores, artistas, intelectuais e cidadãos comprometidos com a memória de Itabuna. E havia uma razão profunda para isso: quando uma edificação histórica desaparece, não perdemos apenas paredes, portas, janelas ou determinado estilo arquitetônico. Podemos perder também uma referência material por meio da qual diferentes gerações estabeleciam contato com a história da cidade.

Considerei, portanto, que a AGRAL não deveria permanecer indiferente. Naquela mobilização, estivemos ao lado de outras instituições e segmentos da sociedade comprometidos com a preservação do patrimônio. Essa união demonstrou que a memória de uma cidade não pertence a uma pessoa, a uma Academia, a uma universidade ou ao Poder Público isoladamente. A memória constitui patrimônio coletivo e sua preservação exige responsabilidade igualmente coletiva.

Defender o patrimônio, entretanto, não significa ser contrário ao desenvolvimento. Uma cidade precisa crescer, transformar-se e responder às necessidades de seu tempo. O grande desafio está em compreender que modernização e preservação não precisam ser conceitos antagônicos. É possível construir o novo sem apagar todas as referências do antigo; avançar em direção ao futuro sem destruir os caminhos que nos permitem compreender de onde viemos.

Essa experiência fortaleceu em mim uma convicção: há momentos em que preservar significa pesquisar; há momentos em que significa educar; e há momentos em que significa posicionar-se.

Dentro desse mesmo compromisso com a memória, considero especialmente significativo o trabalho desenvolvido em torno de Adonias Filho.

A exposição “Adonias Filho – A Voz Literária do Sul da Bahia” nasceu não apenas como homenagem a um grande escritor, mas como um projeto de pesquisa, literatura, memória e educação.

Durante meses, realizamos levantamento histórico, documental, bibliográfico e iconográfico, reunindo e organizando informações destinadas a apresentar ao público a trajetória humana, intelectual e literária de Adonias Filho, um dos grandes nomes da literatura brasileira do século XX e uma referência fundamental para a compreensão da identidade cultural do Sul da Bahia.

Tive a satisfação de desenvolver esse trabalho juntamente com o confrade Luiz Cláudio Zumaêta Costa, membro efetivo da AGRAL, ocupante da Cadeira nº 28. Procuramos construir uma exposição que não se limitasse a apresentar dados biográficos. Desejávamos estabelecer uma relação entre o visitante, o escritor, sua obra e o território que marcou profundamente o seu universo literário.

Nosso propósito era despertar o interesse por Adonias Filho, aproximá-lo das novas gerações e possibilitar, especialmente aos estudantes, compreender que um escritor de projeção nacional possui raízes profundamente vinculadas ao mesmo Sul da Bahia em que eles vivem.

Existe nisso uma dimensão muito importante de pertencimento. Quando um jovem conhece os escritores, artistas, intelectuais e personagens de sua própria região, começa também a perceber que o lugar onde vive produz história, literatura, pensamento e cultura.

A realização da exposição no Centro de Cultura Adonias Filho, em Itabuna, permitiu que esse trabalho de pesquisa encontrasse diferentes públicos. Posteriormente, sua chegada ao Colégio Estadual Adonias Filho, no bairro da Conceição, conferiu ao projeto uma dimensão pedagógica ainda mais especial.

Levar a vida e a obra de Adonias Filho para uma escola que carrega o seu nome produz um encontro muito significativo entre memória e educação. O nome inscrito na fachada deixa de ser apenas uma denominação e passa a adquirir rosto, biografia, obra, contexto e significado. O estudante começa a compreender quem foi a pessoa cuja memória permanece associada à instituição em que estuda.

Esse percurso foi enriquecido pelo diálogo com o filme “Adonias”, dirigido pelo cineasta Vitor Augusto Xavier. A aproximação entre exposição e cinema ampliou as possibilidades de acesso à trajetória do escritor: a literatura encontrou a linguagem audiovisual; a pesquisa histórica encontrou a dramaturgia; fotografias e documentos encontraram a imagem em movimento.

Considero essa pluralidade de linguagens extremamente importante porque as pessoas se aproximam do conhecimento por caminhos diferentes. Algumas serão despertadas por um livro; outras, por uma fotografia; outras, por um documento histórico; outras ainda poderão descobrir determinado personagem por meio do cinema. Cabe também às instituições culturais criar essas diferentes portas de entrada para o conhecimento.

Por tudo isso, não compreendo memória como nostalgia. Memória é conhecimento, identidade, pertencimento e responsabilidade.

Quando estudamos a história de Itabuna, procuramos compreender melhor a cidade em que vivemos hoje. Quando investigamos seus espaços urbanos, aprendemos a interpretar as marcas deixadas pelo tempo. Quando defendemos seu patrimônio, estamos também discutindo que cidade desejamos transmitir às próximas gerações. E, quando apresentamos Adonias Filho a um estudante, permitimos que uma obra construída no passado encontre um novo leitor no presente.

É justamente essa relação entre passado, presente e futuro que confere sentido à preservação.

Por isso, considero que a defesa da memória e do patrimônio histórico e cultural não foi apenas uma linha de atividades da gestão 2025–2026. Ela expressou uma compreensão mais ampla da responsabilidade de uma Academia de Artes e Letras: contribuir para que aquilo que uma sociedade não deveria esquecer encontre formas de permanecer vivo em sua memória.

DIREITOS – A valorização das personalidades da cultura e o reconhecimento do mérito também estiveram muito presentes em sua gestão. O que orientou essa preocupação? 

Sempre compreendi que uma Academia de Artes e Letras possui responsabilidades que ultrapassam a realização de atividades culturais, acadêmicas ou administrativas. Uma dessas responsabilidades é saber reconhecer pessoas.

Refiro-me àqueles que, por meio de sua trajetória, de sua obra, de sua dedicação à educação, às artes, à literatura, à pesquisa, à memória e à cultura, ajudam a construir o patrimônio intelectual e imaterial de uma sociedade.

Tenho uma convicção muito profunda a esse respeito: homenagear não deve constituir apenas um gesto protocolar; pode constituir um ato de justiça e de memória.

As sociedades precisam aprender a reconhecer seus mestres, agradecer aos seus educadores, valorizar seus escritores, artistas, pesquisadores, intelectuais e agentes culturais. E, sempre que possível, considero importante que esse reconhecimento aconteça em vida, permitindo que as próprias pessoas saibam que aquilo que construíram foi percebido, compreendido e valorizado.

Muitas vezes, somos extraordinariamente generosos na homenagem depois da ausência e excessivamente econômicos no reconhecimento durante a presença. Sempre pensei que as instituições culturais podem ajudar a transformar essa lógica.

Foi a partir dessa compreensão que procuramos fortalecer, durante a gestão 2025-2026, uma cultura institucional do reconhecimento e da gratidão.

Uma das expressões mais significativas desse propósito foi a instituição da Medalha e do Diploma Firmino Rocha.

A criação dessa distinção nasceu do desejo de oferecer à Academia Grapiúna de Artes e Letras um instrumento permanente de reconhecimento a personalidades cujas trajetórias representassem contribuição relevante às artes, às letras, à educação, à cultura, à memória e à vida intelectual.

Não desejávamos criar simplesmente uma medalha. Desejávamos instituir um símbolo da AGRAL, capaz de atravessar o período de uma gestão e integrar o patrimônio simbólico da Academia.

Essa diferença é importante. Uma medalha, considerada apenas em sua materialidade, é um objeto. Uma distinção institucional, entretanto, adquire significado porque passa a representar os valores da instituição que a concede. Cada outorga registra, para a história da AGRAL, que determinada trajetória foi considerada digna de reconhecimento e de permanência em sua memória.

Ao receber o nome de Firmino Rocha, a distinção estabelece, ela própria, uma relação com a memória cultural que desejamos preservar. A honraria transforma a gratidão em registro e permite que o reconhecimento deixe de ser apenas um sentimento circunstancial para adquirir permanência institucional.

Para dar forma a esse propósito, contamos com a sensibilidade e a contribuição artística do confrade Renart, responsável pela concepção estética da Medalha e do Diploma Firmino Rocha.

Faço questão de registrar nominalmente sua participação porque ela possui significado próprio. Renart não criou apenas uma peça destinada a uma solenidade. Sua concepção passou a integrar o patrimônio simbólico da Academia. Por meio de sua criação artística, uma ideia institucional adquiriu forma, identidade e materialidade.

Considero muito bonito que um símbolo destinado a reconhecer trajetórias culturais tenha sido concebido pela sensibilidade artística de um membro da própria AGRAL. Há nisso uma coerência especial: a Academia reconhecendo a cultura por meio da criação de alguém que também integra a sua história.

A primeira outorga da Medalha e do Diploma Firmino Rocha ocorreu em 7 de abril de 2026, no contexto das comemorações pelos quinze anos de fundação da Academia Grapiúna de Artes e Letras, completados em 4 de abril daquele ano.

Naquela ocasião, a distinção foi concedida ao confrade Agenor Gasparetto.

Ser o primeiro agraciado com uma honraria recém-instituída possui um significado histórico particular. Seu nome passou a ocupar o primeiro registro de uma tradição que desejamos que tenha continuidade e atravesse diferentes gestões.

Também considero especialmente significativo que essa primeira outorga tenha ocorrido justamente durante as celebrações dos quinze anos da AGRAL. Enquanto celebrávamos a trajetória da Instituição, reconhecíamos também uma trajetória humana vinculada à produção intelectual, cultural e acadêmica.

Pouco tempo depois, em 11 de junho de 2026, a Medalha e o Diploma Firmino Rocha viveriam outro momento de profundo significado.

Naquela data, no Centro de Cultura Adonias Filho, a AGRAL homenageou a professora, escritora e educadora Zélia Lessa, por ocasião das celebrações de seu centenário.

Homenagear uma pessoa aos cem anos de vida possui uma dimensão extraordinária. Não se celebra apenas a longevidade. Celebra-se uma existência que atravessou diferentes tempos, testemunhou transformações sociais, acompanhou gerações e construiu uma trajetória de contribuição à educação e às letras.

Uma vida centenária é, de alguma maneira, também um arquivo vivo.

Ao conferir a Medalha e o Diploma Firmino Rocha a Zélia Lessa, a AGRAL reconhecia não apenas uma trajetória individual, mas valores que considero fundamentais: a dedicação ao conhecimento, o compromisso com a educação, a permanência da atividade intelectual e a capacidade de uma vida dedicada ao ensino e à cultura produzir frutos que atravessam gerações.

Aquela homenagem materializou de maneira particularmente emocionante uma convicção que acompanhou toda essa iniciativa: não devemos esperar a ausência para reconhecer a grandeza de uma presença.

É importante dizer também que o reconhecimento institucional não se esgota em medalhas, diplomas ou solenidades. Existem diferentes maneiras de preservar e valorizar uma trajetória: registrar um nome, documentar uma contribuição, divulgar uma obra, reconhecer publicamente um trabalho, conservar a memória de uma realização.

O essencial é que uma instituição cultural desenvolva sensibilidade para perceber aqueles que, em seu tempo, estão contribuindo para construir aquilo que, amanhã, será chamado de memória.

Por isso, quando penso na Medalha e no Diploma Firmino Rocha, não os compreendo apenas como uma realização da gestão 2025-2026. Desejo que constituam uma tradição institucional da AGRAL, preservada e enriquecida pelas gestões futuras.

Que outras personalidades possam ser reconhecidas. Que outras trajetórias sejam celebradas. Que a Academia continue desenvolvendo a capacidade de dizer às pessoas, enquanto elas ainda podem receber esse reconhecimento: sua trajetória possui valor; sua contribuição foi percebida; aquilo que você construiu merece permanecer em nossa memória.

Talvez seja essa uma das funções mais humanas de uma Academia de Artes e Letras: reconhecer aquilo que o tempo não deveria apagar e contribuir para transformar trajetórias humanas em patrimônio da memória coletiva.

DIREITOS – A AGRAL ampliou significativamente sua presença pública e o diálogo com outras instituições durante sua gestão. Qual a importância dessa representação institucional? 

Sempre compreendi que uma Academia de Artes e Letras não deve limitar sua atuação ao espaço de suas próprias sessões. Uma instituição cultural precisa estabelecer pontes, conhecer outras experiências, participar dos debates de seu tempo e construir relações com outras entidades que também trabalham em favor da literatura, das artes, da cultura, da memória e do conhecimento.

Foi com essa compreensão que procuramos, durante a gestão 2025–2026, ampliar a presença pública da Academia Grapiúna de Artes e Letras e fortalecer sua interlocução com Academias congêneres e diferentes instituições culturais.

Essa presença nunca foi pensada como simples representação protocolar. Cada convite recebido, cada encontro do qual participamos e cada relação institucional construída foram compreendidos como oportunidades de apresentar a AGRAL, conhecer outras experiências, estabelecer vínculos, compartilhar iniciativas e criar possibilidades de cooperação.

Entre essas experiências, considero especialmente significativa a participação da AGRAL no II Colóquio das Academias de Letras da Bahia, realizado em Ilhéus, entre 29 e 31 de agosto de 2025.

O encontro reuniu representantes de diferentes instituições acadêmicas e culturais e proporcionou um espaço importante de intercâmbio sobre o papel das Academias na contemporaneidade. Participar daquele Colóquio significou reafirmar a inserção da AGRAL no movimento acadêmico e cultural baiano e, ao mesmo tempo, perceber que muitas das questões que nos mobilizam são compartilhadas por outras instituições.

As Academias possuem histórias, identidades e realidades distintas, mas enfrentam desafios semelhantes: preservar seus acervos e sua memória, estimular a literatura e a leitura, aproximar-se das novas gerações, utilizar adequadamente as novas formas de comunicação e encontrar maneiras de permanecer culturalmente relevantes sem perder aquilo que constitui sua tradição.

Encontros dessa natureza são importantes justamente porque permitem compartilhar experiências e compreender que instituições culturais podem aprender umas com as outras.

Naquela mesma oportunidade, tivemos também a satisfação de participar da programação do Festival Alvorecer Brasilidades, em Ilhéus, ao lado do poeta Carlos Kahê, do confrade Luiz Cláudio Zumaêta Costa e de escritores, pesquisadores, artistas e intelectuais.

Foi mais um espaço no qual literatura, poesia, memória, história e identidade puderam dialogar. Considero importante que a AGRAL esteja presente onde a cultura está sendo pensada, produzida e compartilhada, não apenas para ser vista, mas para participar efetivamente da circulação das ideias.

Ao longo do biênio, procuramos fortalecer também a interlocução com Academias e organizações congêneres, entre elas a Academia de Letras da Bahia – ALB; a Rede de Integração Cooperativa das Academias de Letras da Bahia – RICA; o Clube do Poeta Sul da Bahia; a Academia de Letras de Ilhéus – ALI; a Academia de Letras de Itabuna – ALITA; a Academia Maçônica de Letras, Ciências e Artes da Região Grapiúna – AMALCARG; a Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia – Aljusba, a Ordem dos Advogados do Brasil-Subseção Itabuna, e instituições do campo das letras jurídicas, além de outras entidades com as quais tivemos oportunidades de convivência, participação ou cooperação.

Considero essa aproximação muito saudável. As Academias e demais instituições culturais não precisam competir entre si. Cada uma possui sua história, seus membros, sua identidade e sua contribuição específica. Quando se aproximam, podem compartilhar experiências, apoiar projetos, participar de programações conjuntas, fortalecer iniciativas culturais e, quando necessário, reunir-se em torno de causas de interesse coletivo.

Esse espírito de cooperação mostrou sua importância também em momentos nos quais diferentes instituições precisaram unir suas vozes em favor da cultura e da preservação da memória. Nessas circunstâncias, cada entidade preserva sua identidade e sua autonomia, mas compreende que determinadas causas são maiores do que qualquer instituição isoladamente.

Registro também com satisfação a aproximação construída com a RICA e a participação da AGRAL nas comemorações alusivas aos seus cinco anos. Celebrar a trajetória de uma instituição parceira é reconhecer também a importância do associativismo cultural, do trabalho voluntário e das pessoas que dedicam parte de suas vidas à literatura, às artes e ao conhecimento.

Outra experiência significativa foi a participação da AGRAL em ações relacionadas ao 2 de Julho, uma das datas fundamentais da história da Bahia.

Participar de atividades alusivas à Independência do Brasil na Bahia significou inserir a Academia em um espaço de valorização da história e da identidade baianas. As datas históricas permanecem verdadeiramente vivas quando cada geração compreende aquilo que elas representam e consegue estabelecer relações entre os acontecimentos do passado e a sociedade do presente.

A realização de atividade com transmissão ao vivo pelo YouTube acrescentou ainda uma dimensão importante a essa experiência. As tecnologias contemporâneas permitem ampliar o alcance das ações culturais e, ao mesmo tempo, produzir registros que podem permanecer disponíveis para consulta. Uma atividade que antes alcançaria somente as pessoas fisicamente presentes pode chegar a outros públicos e ultrapassar fronteiras geográficas.

Mas existe outro aspecto da representação institucional que considero fundamental: a AGRAL não é representada apenas por sua Presidência.

Ao longo da gestão, confrades e confreiras também aceitaram representar a Academia em diferentes oportunidades. Considero isso extremamente importante porque uma instituição se fortalece quando seus membros compreendem que também são portadores de sua identidade e de sua história.

Quando um confrade ou uma confreira participa de uma atividade em nome da AGRAL, leva consigo muito mais do que uma denominação institucional. Leva uma história, uma tradição, seus fundadores, seus patronos, seus membros e a responsabilidade inerente ao pertencimento a uma Academia de Artes e Letras.

Por isso, sempre procurei tratar cada convite recebido com grande respeito. Quando outra instituição convida a AGRAL para participar de uma atividade, percebo nesse gesto um reconhecimento da existência e da trajetória da Academia.

Esse reconhecimento institucional adquiriu uma expressão particularmente significativa em 8 de julho de 2026, quando a Academia Grapiúna de Artes e Letras recebeu uma Moção de Congratulações por seus 15 anos, por iniciativa do Vereador Delegado Clodovil.

Recebemos essa manifestação com gratidão, compreendendo-a não apenas como uma homenagem circunstancial, mas como um reconhecimento público ao trabalho cultural, intelectual e institucional desenvolvido pela AGRAL e à presença que a Academia vem construindo na vida cultural de Itabuna e do Sul da Bahia.

Considero importante destacar que uma homenagem dessa natureza não pertence a uma Presidência ou a uma Diretoria. Ela pertence à Instituição. Ao reconhecer a AGRAL, reconhece-se também uma trajetória iniciada por seus fundadores, continuada pelas diferentes gestões e construída pela participação de confrades e confreiras que, ao longo dos anos, dedicaram seu conhecimento, seu trabalho e sua presença à Academia.

Por isso, receber aquela Moção significou, para mim, também um momento de responsabilidade. O reconhecimento público não deve produzir apenas satisfação; deve renovar o compromisso de uma instituição com os valores e com a missão que justificaram esse reconhecimento.

A presença pública da AGRAL foi gradualmente ampliando os espaços de interlocução institucional. A Academia permaneceu profundamente vinculada a Itabuna e ao Sul da Bahia, onde se encontram suas raízes, mas procurou compreender que identidade regional não significa isolamento.

Ao contrário: possuir identidade própria é justamente o que nos permite dialogar com outras instituições, apresentar nossas experiências, conhecer outros projetos e participar de redes culturais mais amplas.

Tenho profunda gratidão às instituições que abriram suas portas à AGRAL, que nos convidaram para suas atividades, que aceitaram nossos convites e que compartilharam conosco momentos de reflexão, celebração e cooperação.

Essas experiências fortaleceram uma convicção que considero importante: instituições culturalmente conscientes não precisam construir muros; podem construir pontes.

Pontes entre Academias, entre cidades, entre escritores, artistas e pesquisadores, entre diferentes experiências culturais e entre pessoas que compartilham o compromisso com a preservação e a produção do conhecimento.

Foi esse o sentido que procurei atribuir à representação institucional durante a gestão 2025-2026: não simplesmente fazer a AGRAL ser vista, mas fazê-la participar, dialogar, aprender, compartilhar e contribuir.

Porque a presença pública de uma instituição somente adquire verdadeiro significado quando se transforma em relacionamento, cooperação e credibilidade. E a credibilidade não nasce apenas da visibilidade; constrói-se, sobretudo, pela coerência entre aquilo que uma instituição afirma representar e aquilo que efetivamente realiza.

DIREITOS – A aproximação da AGRAL com instituições educacionais e culturais parece ter sido uma das marcas de sua gestão. Qual a importância dessa iniciativa? 

Sempre compreendi que uma Academia de Artes e Letras somente realiza plenamente sua missão quando o conhecimento que produz, preserva e compartilha consegue ultrapassar os limites de suas próprias sessões e estabelecer um diálogo efetivo com a sociedade.

A cultura encontra sentido quando circula. A literatura precisa encontrar leitores; a pesquisa precisa dialogar com a realidade; a arte precisa encontrar novos olhares; e a memória precisa ser transmitida para que não se interrompa entre uma geração e outra.

Foi essa compreensão que nos levou, durante a gestão 2025-2026, a buscar uma aproximação cada vez maior com escolas, universidades, centros culturais e outras instituições comprometidas com a educação, a cultura e a formação humana.

Sempre acreditei que uma Academia não existe apenas para guardar conhecimento. Existe também para colocá-lo em circulação.

Nesse sentido, considero especialmente importante o diálogo entre cultura e educação. A literatura, a história, a filosofia, a ciência, a arte, a psicologia, o cinema, o teatro, a música e a memória não constituem universos isolados. São diferentes maneiras de interpretar a experiência humana e de compreender o mundo.

Essa concepção encontra diálogo com o pensamento de Edgar Morin, sobretudo em sua crítica à fragmentação do conhecimento e na defesa de uma educação capaz de estabelecer relações entre diferentes campos do saber. Também encontra correspondência nas reflexões de Martha Nussbaum sobre o papel das humanidades na formação de pessoas capazes de pensar criticamente, desenvolver a imaginação, compreender o outro e participar responsavelmente da vida social.

Essas referências ajudam a expressar algo em que acredito profundamente: uma Academia de Artes e Letras não deve contribuir apenas para a transmissão de informações ou para a ampliação da erudição. Ela pode colaborar também para a formação da sensibilidade, da curiosidade intelectual, da capacidade de interpretação e do pensamento crítico.

Foi com essa perspectiva que procuramos transformar a aproximação com as instituições educacionais em experiências concretas.

Ao longo do biênio, construímos ou fortalecemos relações com instituições como  a Escola Municipal João Rodrigues, o Instituto Municipal Teosópolis, o Colégio Estadual Inácio Tosta Filho, a Creche e Escola Semente do Amanhã, o Colégio Estadual Adonias Filho, o Instituto de Educação Profissional – IEPROL, o Colégio Ação Fraternal de Itabuna – AFI, além de outras instituições que acolheram, participaram ou colaboraram com ações desenvolvidas pela AGRAL.

Faço questão de registrar esses nomes porque uma parceria institucional nunca existe apenas no papel. Por trás de cada escola que abre suas portas existem gestores que acreditam na proposta, professores que mobilizam estudantes, equipes pedagógicas que colaboram, servidores que ajudam a tornar as atividades possíveis e jovens que recebem aquilo que levamos.

E existe uma imagem que considero particularmente representativa dessa política: a Academia saindo de seus espaços habituais e indo ao encontro da escola.

Quando isso acontece, modifica-se a relação entre a instituição cultural e o estudante. O jovem não precisa necessariamente deslocar-se até um espaço acadêmico ou cultural para encontrar determinado conhecimento; é o conhecimento que vai ao seu encontro.

Quando uma exposição chega à escola, fotografias, documentos e informações históricas passam a fazer parte do cotidiano dos estudantes. Quando um escritor conversa com jovens, a literatura deixa de ser apenas um conteúdo abstrato. Quando um cineasta apresenta sua obra e fala sobre seus processos de criação, o cinema pode revelar-se também como pesquisa, linguagem e construção de memória. Quando uma Academia participa de uma mostra científica, reafirma que as artes e as humanidades não precisam estar separadas da ciência.

Um exemplo especialmente significativo foi a presença da exposição “Adonias Filho- A Voz Literária do Sul da Bahia” no Colégio Estadual Adonias Filho, no bairro da Conceição, em Itabuna.

Não retomaria aqui todo o significado histórico da exposição, porque ele está relacionado ao nosso trabalho de preservação da memória, mas considero importante destacar sua dimensão educacional.

Levar a vida e a obra de Adonias Filho para uma escola que possui o seu nome permitiu estabelecer uma relação muito concreta entre identidade institucional, literatura e educação. Os estudantes puderam conhecer a pessoa existente por trás do nome que identifica a própria escola.

A presença do filme “Adonias”, dirigido pelo cineasta Vitor Augusto Xavier, ampliou ainda mais essa experiência, permitindo que literatura, cinema, história e educação se encontrassem em diferentes linguagens.

Também considero muito significativa a aproximação com o Instituto de Educação Profissional- IEPROL.

A participação da AGRAL em atividades desenvolvidas pela instituição, inclusive em sua V Mostra Científica, permitiu-nos acompanhar estudantes envolvidos com pesquisa, ciência, tecnologia, sustentabilidade e questões da realidade contemporânea.

Foi uma experiência particularmente interessante porque reafirmou uma convicção: não devemos estabelecer fronteiras artificiais entre as humanidades e as ciências.

A literatura nos ajuda a interpretar. A ciência nos ensina a investigar. A história nos permite compreender processos. A arte amplia nossa sensibilidade. A filosofia nos ensina a perguntar. E a educação cria possibilidades para que esses diferentes saberes se encontrem.

Quando uma Academia de Artes e Letras entra em um espaço de produção científica juvenil, ela também transmite uma mensagem: a curiosidade intelectual merece ser estimulada, independentemente da área do conhecimento em que se manifeste.

Dentro dessa rede de interlocução, considero indispensável destacar também a Universidade Estadual de Santa Cruz- UESC.

A UESC ocupa lugar fundamental na produção científica, acadêmica e cultural do Sul da Bahia, e sua interlocução com a AGRAL esteve presente em diferentes iniciativas, especialmente naquelas relacionadas à história, à memória, à educação e à cultura.

Essa aproximação demonstra como instituições com características distintas podem contribuir umas com as outras. A Universidade produz conhecimento científico e acadêmico; uma Academia de Artes e Letras reúne produção intelectual, memória e experiência cultural; as escolas aproximam esses conhecimentos das novas gerações; e os espaços culturais possibilitam sua circulação para públicos mais amplos.

Quando essas instituições dialogam, forma-se uma rede na qual o conhecimento deixa de permanecer compartimentado.

Também foram fundamentais os espaços culturais que acolheram iniciativas da AGRAL. O Centro de Cultura Adonias Filho, por exemplo, tornou possível o encontro de diferentes públicos com projetos da Academia e acolheu momentos importantes de nossa programação.

Da mesma maneira, faço questão de registrar a colaboração da Loja Maçônica 28 de Julho, que acolheu atividades acadêmicas e culturais da AGRAL ao longo do biênio. Esse apoio teve grande importância para uma instituição que necessita de espaços adequados para realizar encontros, palestras e solenidades. Quando uma instituição abre suas portas para outra, não oferece apenas um espaço físico; manifesta confiança e cooperação.

Essa política de circulação também alcançou outros territórios. A participação da AGRAL em festivais e feiras literárias representou uma oportunidade de levar sua produção, seus projetos e sua presença institucional para além de Itabuna, encontrando escritores, leitores, estudantes, artistas e agentes culturais de outras cidades.

É importante para mim que essa aproximação não seja compreendida como um movimento unilateral, como se a Academia fosse apenas levar conhecimento às instituições educacionais. A AGRAL também aprende nesses encontros.

Aprendemos quando ouvimos os estudantes.

Aprendemos quando entramos em contato com experiências pedagógicas.

Aprendemos quando acompanhamos jovens apresentando pesquisas.

Aprendemos quando professores nos mostram outras maneiras de trabalhar literatura, ciência, história e cultura.

Aprendemos quando percebemos que novas gerações formulam perguntas diferentes das nossas.

Há, portanto, reciprocidade.

Talvez essa seja uma das dimensões que mais valorizo nesse trabalho: aproximar a AGRAL das instituições educacionais significou aproximá-la também das novas gerações.

Uma Academia que não estabelece diálogo com os jovens corre o risco de preservar magnificamente o passado e, ao mesmo tempo, perder sua capacidade de conversar com o futuro.

Por isso, desejo uma AGRAL capaz de preservar sua tradição sem transformar essa tradição em isolamento; uma Academia que reconheça seus mestres e sua história, mas que também saiba abrir espaço para estudantes, jovens escritores, pesquisadores, artistas e novas formas de produção do conhecimento.

A aproximação com escolas, universidades e instituições culturais representou, portanto, muito mais do que uma estratégia de ampliação da presença da AGRAL. Representou uma concepção de responsabilidade social da própria Academia.

Conhecimento que não circula corre o risco de permanecer restrito. Memória que não é transmitida pode desaparecer. Cultura que não encontra novas gerações pode perder continuidade.

É por isso que acredito em uma Academia que sai de si mesma, encontra a sociedade, ensina e aprende.

Uma Academia culturalmente presente, educacionalmente comprometida e capaz de compreender que talvez uma das formas mais importantes de preservar as artes, as letras, a memória e o conhecimento seja colocá-los em diálogo com aqueles que continuarão a construí-los.

DIREITOS – Um dos trabalhos mais complexos da gestão foi a revisão do Estatuto Social e o fortalecimento da organização administrativa da AGRAL. Como a senhora avalia esse processo?

Considero que uma Academia de Artes e Letras não se sustenta apenas pela qualidade de suas atividades culturais, pela produção intelectual de seus membros ou pela relevância dos projetos que realiza. Uma instituição que deseja atravessar gerações precisa também possuir bases administrativas sólidas, normas claras, procedimentos seguros e mecanismos que assegurem participação, continuidade e responsabilidade institucional.

E é essa a compreensão com que dedico especial atenção, durante a gestão 2025-2026, ao fortalecimento da organização administrativa da Academia Grapiúna de Artes e Letras.

Entre os trabalhos mais complexos desse período encontra-se o processo de revisão do Estatuto Social da AGRAL, em vigor desde 2023.

Faço questão de utilizar a expressão “processo de revisão” porque ela traduz com maior exatidão o que foi realizado. Não se tratou de desconsiderar o Estatuto existente nem de simplesmente substituí-lo por outro. Partimos do texto de 2023, reconhecendo sua legitimidade e sua importância para a vida da Academia, e o submetemos a um estudo criterioso, procurando identificar dispositivos que necessitavam de atualização, maior clareza, reorganização ou adequação às necessidades institucionais que foram se apresentando.

Revisar um Estatuto é uma tarefa de enorme responsabilidade.

O Estatuto não pertence à Presidência. Não pertence à Diretoria. Não pertence à Comissão encarregada de estudá-lo. Ele pertence, institucionalmente, à própria Academia.

É o instrumento que estabelece as bases de seu funcionamento, define direitos e deveres, organiza estruturas administrativas, disciplina formas de participação, orienta procedimentos eleitorais e oferece segurança para a continuidade da vida acadêmica.

Por essa razão, compreendi desde o início que qualquer proposta de alteração deveria ser tratada com prudência, estudo e respeito à história da AGRAL.

Modernizar uma instituição não significa romper indiscriminadamente com aquilo que já existe. Significa observar as transformações do presente e verificar de que maneira determinadas estruturas podem ser aperfeiçoadas sem que a Instituição perca sua identidade.

Esse trabalho exigiu tempo, leitura, análise, comparação de dispositivos, discussão de possibilidades e atenção às consequências que cada alteração poderia produzir. Uma palavra modificada em um Estatuto pode ter repercussões muito maiores do que aparenta; uma regra pouco clara pode gerar interpretações divergentes; uma omissão pode produzir dificuldades futuras. Por isso, esse não poderia ser um trabalho realizado de maneira apressada.

A constituição de Comissão específica, formalizada por Portaria, foi fundamental nesse processo. Ao atribuir o estudo a um grupo de membros, procuramos garantir que a revisão não fosse conduzida como expressão da vontade individual da Presidência, mas como trabalho institucional que pudesse reunir diferentes leituras e contribuições.

Considero importante reconhecer o empenho daqueles que aceitaram essa responsabilidade. Trabalhar em uma Comissão dessa natureza exige dedicação silenciosa: ler, reler, comparar textos, discutir redações, identificar problemas e procurar soluções juridicamente e institucionalmente adequadas. É um trabalho que nem sempre possui a visibilidade de uma atividade cultural, mas que pode produzir efeitos duradouros na vida da Academia.

Entre as questões examinadas esteve também a necessidade de pensar os procedimentos eleitorais à luz das possibilidades contemporâneas de participação.

As instituições mudam porque a sociedade também muda. Novos recursos tecnológicos passam a integrar a vida cotidiana e podem, quando utilizados com responsabilidade, ampliar possibilidades de participação. Nesse contexto, foi considerada a incorporação de mecanismos que permitissem, ao lado das formas tradicionais previstas, o uso de recursos digitais no processo de votação, procurando conciliar modernização, segurança e participação da membresia.

Esse exemplo demonstra bem o espírito que orientou a revisão: não modernizar por modernizar, mas perguntar se determinada mudança poderia contribuir para tornar a vida institucional mais clara, acessível e adequada às necessidades contemporâneas.

Outro aspecto importante foi a análise das estruturas e dos procedimentos destinados a garantir a continuidade administrativa da Academia. Uma instituição precisa estar preparada não apenas para as situações previstas no cotidiano, mas também para circunstâncias excepcionais. O Estatuto deve oferecer respostas suficientemente claras para que a AGRAL não dependa da interpretação ou da vontade de uma única pessoa quando surgirem situações não rotineiras.

Esse cuidado está diretamente relacionado à segurança institucional.

Quanto mais claras forem as normas, menor será a dependência de decisões personalizadas. Quanto mais bem definidos estiverem direitos, deveres, competências e procedimentos, maiores serão as condições para que cada gestão exerça suas responsabilidades dentro de limites conhecidos por todos.

Esse é um aspecto que considero particularmente importante: fortalecer a Instituição significa também reduzir sua dependência das pessoas que, temporariamente, ocupam os cargos.

Presidentes mudam. Diretorias se renovam. Comissões encerram seus trabalhos. Novos membros chegam. As normas institucionais, entretanto, devem oferecer uma base suficientemente sólida para que a Academia continue funcionando apesar dessas mudanças.

Naturalmente, nenhum Estatuto consegue prever todas as situações que a vida institucional poderá apresentar. As instituições são organismos vivos, e novas necessidades surgirão. O importante é que o instrumento normativo seja suficientemente claro para orientar o presente e suficientemente consistente para permitir que futuras gerações realizem, quando necessário, novos aperfeiçoamentos.

O fortalecimento administrativo da AGRAL também envolveu uma preocupação mais ampla com a formalidade dos procedimentos institucionais.

Sempre considerei importante distinguir aquilo que pertence ao campo das relações pessoais daquilo que pertence ao campo das responsabilidades institucionais. Uma Academia é também uma pessoa jurídica, possui normas e responsabilidades que precisam ser observadas. O afeto, a amizade e a convivência fraterna são valores preciosos, mas não substituem os procedimentos necessários ao funcionamento de uma instituição.

Essa distinção é essencial para proteger a própria Academia e também as pessoas que nela exercem funções.

Quando competências estão definidas, responsabilidades são distribuídas e decisões seguem procedimentos conhecidos, diminui-se o risco de personalização da vida institucional. A administração deixa de depender excessivamente de quem ocupa determinado cargo e passa a apoiar-se em regras e estruturas que pertencem à AGRAL.

Por isso, considero que o trabalho administrativo desenvolvido durante o biênio possui importância equivalente àquela das ações que alcançaram maior visibilidade pública.

Uma palestra pode reunir um público e produzir um encontro memorável. Uma exposição pode levar conhecimento a centenas de pessoas. Uma homenagem pode reconhecer uma trajetória extraordinária. Mas uma norma cuidadosamente construída pode ajudar uma instituição a funcionar durante muitos anos.

São dimensões diferentes da mesma responsabilidade.

Uma Academia precisa de poesia, literatura, arte, memória e pensamento. Mas também precisa de organização, segurança jurídica, procedimentos e responsabilidade administrativa para que tudo aquilo que constitui sua missão cultural possa continuar existindo.

Avalio, portanto, o processo de revisão estatutária e de fortalecimento administrativo como um trabalho de construção institucional.

Talvez seja uma das dimensões menos visíveis de uma gestão, porque grande parte dela acontece longe das solenidades e das atividades públicas. Entretanto, é justamente nesses espaços silenciosos de estudo, organização e definição de procedimentos que muitas vezes se constroem as condições para a permanência de uma instituição.

E foi esse o propósito que orientou nosso trabalho: contribuir para que a AGRAL disponha de bases cada vez mais claras e seguras para continuar sua trajetória, independentemente de quem esteja ocupando, em determinado momento, a Presidência ou qualquer outro cargo de sua estrutura administrativa.

Porque uma instituição verdadeiramente fortalecida é aquela cuja continuidade não depende de uma pessoa, mas da solidez de seus princípios, de suas normas e da responsabilidade coletiva de seus membros.

DIREITOS – Sua gestão demonstra uma preocupação especial com a documentação e a preservação da memória institucional da AGRAL. Por que esse trabalho é considerado tão importante?

Sempre compreendi que uma instituição que não preserva seus registros corre o risco de perder parte de sua própria história.

As atividades acontecem, as pessoas participam, os projetos são realizados, as gestões se sucedem, mas, se não houver documentação, com o passar do tempo muitos acontecimentos permanecem apenas na lembrança daqueles que os vivenciaram. E a memória individual, por mais preciosa que seja, não pode constituir a única guardiã da trajetória de uma instituição.

Foi por essa razão que a preservação da memória institucional da Academia Grapiúna de Artes e Letras recebeu atenção especial durante a gestão 2025-2026.

Procurei estimular uma cultura de registro. Atas, portarias, editais, comunicados, informativos, fotografias, convites, programas, entrevistas, registros audiovisuais, documentos relativos às exposições, produções dos membros e outros materiais passaram a ser compreendidos não apenas como instrumentos administrativos ou de divulgação, mas também como partes de um acervo que poderá ajudar a contar a história da AGRAL.

Essa mudança de perspectiva é importante.

Uma ata não é apenas o registro burocrático de uma reunião. Ela informa quem estava presente, quais assuntos foram discutidos, que decisões foram tomadas e quais questões mobilizavam a Instituição em determinado momento.

Uma Portaria não é apenas um ato administrativo. Ela permite conhecer como a Academia organizou suas responsabilidades, constituiu suas Comissões e distribuiu determinadas atribuições.

Um Edital registra procedimentos institucionais.

Um informativo documenta acontecimentos, projetos, presenças, parcerias e realizações.

Uma fotografia preserva pessoas, lugares e circunstâncias que talvez nunca mais se repitam exatamente da mesma maneira.

Um convite registra não apenas uma atividade, mas também nomes, datas, temas, instituições e aspectos da própria vida cultural de uma época.

E uma entrevista pode preservar aquilo que nenhum documento administrativo consegue registrar: a voz, a memória, a experiência e a interpretação de quem viveu determinado tempo.

Por isso, acredito que documentar é também uma maneira de respeitar aqueles que constroem a Instituição.

Quando registramos corretamente o nome de uma pessoa que participou de uma atividade, quando identificamos quem realizou uma pesquisa, quem concebeu um projeto, quem proferiu uma palestra, quem integrou uma Comissão ou quem contribuiu para determinada iniciativa, estamos reconhecendo sua participação na construção daquela história.

Essa preocupação com a precisão dos registros pode parecer excessiva para quem observa apenas o presente. Para mim, entretanto, ela possui uma razão muito clara: o documento que produzimos hoje poderá ser consultado amanhã por alguém que não esteve presente e que dependerá dele para compreender o que aconteceu.

Talvez daqui a vinte, trinta ou cinquenta anos, um futuro confrade, uma futura confreira, um estudante ou um pesquisador deseje estudar a história da AGRAL. Essa pessoa não poderá perguntar diretamente a todos aqueles que participaram de sua trajetória. Precisará recorrer aos vestígios que tivermos sido capazes de preservar.

É nesse momento que aquilo que hoje parece cotidiano poderá adquirir extraordinário valor.

Uma fotografia aparentemente comum poderá tornar-se rara.

Uma entrevista poderá transformar-se em fonte de pesquisa.

Um informativo poderá esclarecer a origem de determinado projeto.

Uma ata poderá permitir compreender uma decisão importante.

Um conjunto de convites e programas poderá ajudar a reconstruir a vida cultural da Academia em determinado período.

Uma exposição devidamente documentada poderá servir de referência para estudos que ainda nem imaginamos.

Foi com essa consciência que procurei também dedicar atenção à organização dos acervos físico e digital da AGRAL.

A memória contemporânea possui essa dupla dimensão. Continuamos produzindo objetos e documentos materiais que precisam ser conservados, identificados e organizados, mas uma parte crescente da vida institucional encontra-se em arquivos digitais: fotografias, vídeos, textos, entrevistas, peças gráficas, correspondências institucionais e outros registros.

Preservar apenas o papel já não é suficiente.

As instituições precisam aprender também a preservar sua memória digital.

Esse é um desafio importante do nosso tempo porque, paradoxalmente, nunca produzimos tantos registros e talvez nunca tenhamos corrido tanto risco de perdê-los. Um documento em papel, quando adequadamente conservado, pode atravessar décadas. Um arquivo digital pode desaparecer em segundos se não houver organização, cópias de segurança, identificação e responsabilidade por sua guarda.

Por isso, considero necessário que a AGRAL desenvolva progressivamente uma verdadeira política de memória institucional, capaz de integrar acervo físico, documentação administrativa, registros fotográficos, materiais audiovisuais e arquivos digitais.

Essa preocupação alcança também a produção intelectual de seus membros.

Uma Academia de Artes e Letras precisa conhecer e preservar referências sobre aquilo que seus confrades e suas confreiras produziram ao longo do tempo: livros, artigos, pesquisas, obras artísticas, entrevistas, conferências, homenagens e outras contribuições relevantes.

Quando essas informações são organizadas, não estamos simplesmente formando um arquivo de realizações individuais. Estamos documentando parte da própria história intelectual da Instituição.

Nesse sentido, a série “Todas as Vozes – Entrevistas Autorais”, já mencionada anteriormente, possui também uma dimensão documental. Não é necessário retomar aqui toda a concepção do projeto, mas considero importante registrar que cada depoimento preservado acrescenta ao acervo uma fonte de memória oral que poderá adquirir valor crescente com o passar dos anos.

O mesmo ocorre com as exposições realizadas ou concebidas pela AGRAL. Além da experiência oferecida ao público no momento de sua apresentação, é importante conservar os materiais de pesquisa, os textos, as imagens, os registros fotográficos e as informações relacionadas à sua realização. Dessa maneira, o trabalho não desaparece quando a exposição é encerrada.

Talvez essa seja uma das mudanças de mentalidade que mais desejo ver consolidada: a atividade termina; o seu registro não deve terminar com ela.

Um evento possui uma data.

Um documento pode atravessar gerações.

E há ainda uma dimensão que considero particularmente importante: preservar a memória institucional significa também preservar as origens da Academia.

A AGRAL foi fundada em 4 de abril de 2011. Desde então, diferentes pessoas ocuparam cargos, desenvolveram projetos, participaram de atividades e contribuíram para a construção da Instituição. Quanto mais o tempo avança, maior se torna nossa responsabilidade de reunir, organizar e proteger os registros desse percurso.

Não precisamos esperar que os documentos se tornem antigos para compreender que são históricos.

A história começa a ser construída no próprio momento em que os acontecimentos estão sendo vividos.

Por isso, considero que cada gestão deveria receber da anterior não apenas uma instituição juridicamente organizada, mas também um conjunto documental capaz de lhe permitir compreender aquilo que já foi realizado.

E deveria, ao final de seu período, acrescentar novos registros a esse patrimônio.

Dessa forma, a memória institucional deixa de depender da lembrança de uma Presidência ou de uma Diretoria e passa a constituir efetivamente um patrimônio da Academia.

Tenho esperança de que esse cuidado não termine com a gestão 2025-2026.

Desejo que as futuras Diretorias continuem preservando as atas, os documentos, as fotografias, as entrevistas, as exposições, as produções dos membros e os registros das atividades; que as novas tecnologias sejam utilizadas em favor da memória; e que os acervos físico e digital recebam atenção permanente.

Porque uma Academia não começa novamente a cada eleição.

Ela continua.

E, para continuar conscientemente, precisa saber de onde veio, quem participou de sua construção, quais caminhos percorreu e que experiências acumulou ao longo do tempo.

Se conseguirmos deixar para aqueles que virão depois de nós não apenas a lembrança das atividades realizadas, mas documentos, imagens, entrevistas, registros e fontes capazes de contar essa história, teremos contribuído para algo muito maior do que a documentação de um biênio administrativo.

Teremos contribuído para a construção da memória histórica da Academia Grapiúna de Artes e Letras.

E talvez essa seja uma das responsabilidades mais silenciosas, porém mais duradouras, de uma gestão: compreender que aquilo que hoje registramos como presente poderá constituir, amanhã, a história que permitirá à AGRAL reconhecer a si mesma.

DIREITOS –  Depois de tantas ações desenvolvidas ao longo deste período, qual legado a senhora acredita deixar para a Academia Grapiúna de Artes e Letras?

Quando penso em legado, procuro não o confundir com uma relação de realizações. As realizações são importantes porque materializam o trabalho de uma gestão. Entretanto, o legado talvez esteja em uma dimensão mais profunda: naquilo que permanece como possibilidade, aprendizado, estrutura, consciência institucional e caminho aberto depois que um mandato termina.

Por isso, se me perguntassem qual considero o principal legado da gestão 2025-2026, eu não escolheria uma palestra, uma exposição, uma homenagem, uma parceria ou qualquer outro projeto isoladamente. Diria que procuramos contribuir para o fortalecimento da Academia Grapiúna de Artes e Letras como instituição.

Esse fortalecimento ocorreu em diferentes dimensões, já abordadas ao longo desta entrevista, e não desejo repeti-las aqui. O que me parece mais importante, neste momento, é compreender o sentido que elas adquirem quando observadas em conjunto.

Procuramos contribuir para uma Academia consciente de sua história e de suas raízes, mas também capaz de dialogar com o seu tempo; uma Academia que reconheça o valor das artes e das letras, mas que não estabeleça fronteiras rígidas entre os diferentes campos do conhecimento; uma Academia que preserve sua identidade e, ao mesmo tempo, permaneça aberta à sociedade; uma Academia que reconheça seus membros, estabeleça relações com outras instituições e compreenda a importância de aproximar-se das novas gerações.

Se algo desejo que permaneça, é justamente essa compreensão ampliada da missão institucional da AGRAL.

Uma Academia de Artes e Letras pode ser guardiã da tradição sem se transformar em lugar de imobilidade. Pode reverenciar aqueles que vieram antes sem deixar de acolher aqueles que chegam. Pode preservar a memória sem viver exclusivamente do passado. Pode manter a solenidade própria de sua história e, ao mesmo tempo, estar presente nas escolas, nas universidades, nos espaços culturais, nas feiras literárias e nos diferentes ambientes em que o conhecimento está sendo produzido e compartilhado.

Talvez um dos legados que mais me importem seja justamente o fortalecimento dessa ideia de continuidade com renovação.

A tradição, quando verdadeiramente compreendida, não é uma estrutura que nos impede de avançar. Ela é o ponto a partir do qual avançamos.

Recebemos uma Instituição fundada em 4 de abril de 2011, construída pelo idealismo de seus fundadores e continuada pelo trabalho daqueles que assumiram responsabilidades ao longo de sua trajetória. Nossa geração recebeu essa história já iniciada e teve a oportunidade de acrescentar-lhe uma parte.

É assim que compreendo uma gestão: como um elo.

Não somos o início.

Não seremos o fim.

Somos uma passagem entre aquilo que recebemos e aquilo que entregaremos.

Essa consciência sempre me pareceu fundamental porque impede que uma gestão confunda realização institucional com realização pessoal. Tudo aquilo que foi desenvolvido durante o biênio pertence, em última instância, à AGRAL.

Os projetos pertencem à AGRAL.

Os registros pertencem à AGRAL.

Os símbolos instituídos pertencem à AGRAL.

As relações construídas em seu nome pertencem à AGRAL.

A memória produzida durante esse período pertence à AGRAL.

E tudo aquilo que tiver condições de permanecer deverá estar disponível para que outras gestões possam continuar, aperfeiçoar, transformar e criar caminhos.

Não gostaria, portanto, que o legado de 2025-2026 fosse compreendido como um modelo que as futuras gestões devessem simplesmente reproduzir. Cada tempo possui suas necessidades, cada Diretoria terá suas próprias características e cada geração formulará novas perguntas.

O que desejo é que novas ideias encontrem espaço.

Que permaneçam possibilidades.

Que outros membros proponham iniciativas.

Que novas linguagens sejam incorporadas.

Que os projetos que demonstrarem vitalidade possam continuar.

Que aquilo que precisar ser aperfeiçoado seja aperfeiçoado.

Que a AGRAL continue aprendendo com sua própria experiência sem perder a capacidade de se transformar.

Isso porque instituições culturais somente permanecem verdadeiramente vivas quando conseguem equilibrar duas forças igualmente necessárias: memória e renovação.

Sem memória, corremos o risco de perder identidade.

Sem renovação, corremos o risco de perder vitalidade.

O desafio está em permitir que uma ilumine a outra.

Há também um legado menos visível, mas que considero particularmente importante: a compreensão de que pertencer a uma Academia significa participar de uma responsabilidade coletiva.

Uma instituição não é construída apenas por quem ocupa sua Presidência ou integra sua Diretoria. Ela depende da presença, da iniciativa, do conhecimento, da disponibilidade e do compromisso de muitas pessoas.

Por isso, se a gestão tiver contribuído para ampliar entre confrades e confreiras o sentimento de que cada um pode acrescentar alguma coisa à história da AGRAL, considero que terá deixado algo verdadeiramente valioso.

Não precisamos contribuir todos da mesma maneira.

Há quem pesquise.

Há quem ensine.

Há quem produza arte.

Há quem preserve documentos.

Há quem contribua escrevendo.

Há quem represente a Academia.

Há quem organize.

Há quem proponha.

Há quem abra portas.

Há quem ofereça experiência.

Há quem traga novas ideias.

A diversidade dessas contribuições é uma força institucional.

Da mesma maneira, considero importante que permaneça a compreensão de que a AGRAL faz parte de uma realidade cultural maior do que ela própria. Sua história está vinculada a Itabuna, ao Sul da Bahia e às pessoas e instituições com as quais estabelece relações.

Quanto maior for sua capacidade de dialogar, colaborar e compartilhar conhecimento, maior será também a relevância de sua presença cultural.

Mas faço questão de dizer algo que considero essencial quando se fala em legado: nenhum legado institucional pertence a uma única pessoa.

Seria injusto atribuir à Presidência aquilo que foi construído por muitas mãos.

Cada atividade realizada durante esse período contou, de alguma maneira, com pessoas que colaboraram, participaram, sugeriram, pesquisaram, organizaram, acolheram, ensinaram, representaram, divulgaram ou simplesmente estiveram presentes quando sua presença era necessária.

A Diretoria, os confrades e as confreiras, as Comissões, os parceiros institucionais, educadores, escritores, artistas, pesquisadores, gestores culturais e tantas outras pessoas participaram dessa construção.

Por isso, quando utilizo a palavra legado, não penso em “meu legado”. Prefiro pensar no legado de um período da história da AGRAL construído coletivamente.

A Presidência possui responsabilidades próprias e precisa responder pelas decisões que toma, mas nenhuma Presidência constrói sozinha uma instituição.

Talvez seja exatamente essa consciência que eu gostaria de deixar muito claramente registrada nesta entrevista.

Ao final de uma gestão, não considero mais importante perguntar quantas atividades foram realizadas, quantas pessoas estiveram presentes ou quantos projetos foram desenvolvidos. Esses dados têm seu valor histórico, mas existe uma pergunta maior: A Instituição ficou mais preparada para continuar?

Se a resposta puder ser afirmativa, então o trabalho terá cumprido uma parte importante de sua finalidade.

Se deixarmos uma AGRAL mais consciente de sua história, mais organizada, mais aberta ao diálogo, mais presente culturalmente, mais atenta à preservação de sua memória, mais conectada às instituições educacionais e culturais e, sobretudo, mais consciente de que sua continuidade depende da responsabilidade coletiva de seus membros, considerarei que a gestão 2025–2026 ofereceu uma contribuição significativa.

Não uma obra concluída, porque instituições nunca estão concluídas.

Cada geração acrescenta alguma coisa.

Cada gestão encontra novos desafios.

Cada época apresenta novas necessidades.

O importante é que cada uma entregue à seguinte uma Academia capaz de continuar.

É essa a AGRAL que desejo ajudar a transmitir ao futuro: uma Academia que saiba de onde veio, compreenda o tempo em que vive e tenha coragem para preparar-se para o tempo que ainda virá.

Uma Academia intelectualmente ativa, culturalmente relevante, administrativamente responsável, educacionalmente presente, humanamente acolhedora e historicamente consciente de sua missão.

Se tivermos contribuído para isso, ainda que modestamente, compreenderei que cumprimos nossa responsabilidade neste trecho da história que nos foi confiado.

Porque talvez o verdadeiro legado de uma gestão não seja deixar sua marca sobre uma instituição.

É contribuir para que a Instituição tenha condições de continuar escrevendo a própria história depois que aquela gestão já tiver terminado.

DIREITOS – Ao concluir esta entrevista, que mensagem a senhora gostaria de dirigir aos fundadores, aos confrades, às confreiras, às instituições parceiras e à sociedade?

Ao concluir esta reflexão sobre a gestão 2025-2026, percebo que talvez a palavra que melhor traduza o sentimento que permanece seja gratidão.

Gratidão porque nenhuma caminhada institucional é construída por uma única pessoa. Nenhuma Presidência realiza sozinha aquilo que uma Academia consegue produzir. Por trás de cada atividade, de cada projeto, de cada decisão e de cada conquista existem pessoas que acreditaram, colaboraram, ofereceram seu conhecimento, dedicaram seu tempo, abriram portas e, muitas vezes silenciosamente, ajudaram a tornar possível aquilo que depois passou a integrar a história da Instituição.

Minha primeira palavra de reconhecimento dirige-se aos fundadores da Academia Grapiúna de Artes e Letras.

Retorno, simbolicamente, ao dia 4 de abril de 2011, quando Dr. Vercil Rodrigues, Jornalista Ramiro Aquino, o Ilustre Washington Farias de Cerqueira, Prof. Antônio da Silva Costa, Dr. José Carlos Oliveira, Dr. Jorge Ribeiro Carrilho e Dr. Ivann Krebs Montenegro transformaram um ideal em uma instituição.

A eles devemos respeito e gratidão.

Aos fundadores que permanecem entre nós, manifesto meu reconhecimento por continuarem sendo testemunhas vivas das origens e da trajetória da AGRAL. Aos que já partiram, minha reverência e a certeza de que a ausência física não extingue aquilo que uma vida ajudou a construir.

As instituições possuem uma maneira muito particular de enfrentar o esquecimento: lembrar os nomes daqueles que fizeram parte de sua história.

Por isso, considero nosso dever preservar a memória dos fundadores, transmitir às novas gerações aquilo que representaram e reconhecer que, antes de qualquer gestão posterior, existiu o gesto inaugural daqueles que acreditaram na possibilidade de criar esta Casa de Artes e Letras.

Aos confrades e às confreiras, dirijo uma palavra muito especial de agradecimento.

Cada um, a seu modo, constitui parte da identidade da AGRAL. Somos diferentes em nossas formações, experiências, sensibilidades, áreas de atuação e maneiras de compreender o mundo. E talvez seja justamente essa diversidade uma das maiores riquezas de uma Academia.

Agradeço aos que participaram das atividades, aos que aceitaram responsabilidades, aos que integraram Comissões, aos que representaram a Instituição, aos que apresentaram seus trabalhos, aos que ofereceram sugestões, aos que contribuíram com sua experiência e também àqueles que, em diferentes momentos, apresentaram ponderações e divergências.

Uma instituição madura não se constrói apenas com concordâncias. Constrói-se também pela capacidade de conviver com diferenças sem perder o respeito, a fraternidade e o compromisso com aquilo que é maior do que qualquer posição individual: a própria AGRAL.

À Diretoria e aos integrantes das Comissões, deixo meu reconhecimento pela disponibilidade de assumir responsabilidades que nem sempre são percebidas por quem acompanha apenas a face pública de uma instituição. Há muito trabalho silencioso por trás de uma Academia em funcionamento, e sou profundamente grata àqueles que aceitaram compartilhar esse trabalho.

Minha gratidão dirige-se igualmente às instituições parceiras que caminharam conosco.

Às Academias congêneres, à Universidade, às escolas, aos centros e espaços culturais, às instituições públicas e privadas e a todos aqueles que, em diferentes circunstâncias, abriram suas portas para a AGRAL ou aceitaram entrar pelas nossas.

Cada parceria nos ensinou alguma coisa.

Cada encontro ampliou nossas possibilidades.

Cada gesto de acolhimento demonstrou que a cultura se fortalece quando instituições compreendem que podem colaborar sem perder suas identidades.

Agradeço também aos professores, estudantes, escritores, artistas, pesquisadores, historiadores, músicos, cineastas, atores, educadores, gestores culturais, servidores, colaboradores e amigos da AGRAL que estiveram conosco em algum momento dessa caminhada.

Alguns participaram de uma única atividade.

Outros estiveram presentes muitas vezes.

Alguns ofereceram conhecimento.

Outros ofereceram trabalho.

Alguns abriram espaços.

Outros trouxeram ideias.

Alguns nos ensinaram por meio de suas trajetórias.

Outros chegaram com a juventude, a curiosidade e novas perguntas.

Todos, entretanto, acrescentaram alguma coisa.

E talvez seja justamente essa uma das maiores belezas de uma instituição cultural: ninguém escreve sozinho a sua história.

À sociedade de Itabuna e do Sul da Bahia, deixo também uma palavra de reconhecimento.

A AGRAL nasceu neste território e é profundamente marcada por ele. Nossa literatura, nossa memória, nossas inquietações e grande parte dos temas que mobilizam nosso trabalho estão relacionados à história, à cultura e às pessoas desta região.

Por isso, desejo que a Academia continue cada vez mais próxima da sociedade.

Que continue sendo uma Casa capaz de acolher o pensamento, a literatura, a poesia, a arte e o conhecimento.

Que continue reconhecendo seus mestres e abrindo espaço para novas gerações.

Que saiba preservar aquilo que recebeu sem impedir o nascimento daquilo que ainda precisa ser criado.

Que permaneça atenta à sua história sem deixar de compreender as transformações de seu tempo.

Que seus membros nunca percam a consciência de que ocupar uma cadeira em uma Academia não representa apenas uma distinção. Representa também uma responsabilidade.

Responsabilidade com a memória.

Com a cultura.

Com o conhecimento.

Com aqueles que vieram antes.

Com aqueles que caminham conosco.

E com aqueles que ainda virão.

Ao concluir esta entrevista, portanto, não gostaria de terminar enumerando realizações. Elas já foram registradas ao longo destas páginas e encontrarão seu lugar na memória da Instituição.

Prefiro terminar agradecendo.

Muito obrigada.

Aos fundadores.

Aos confrades e às confreiras.

À Diretoria.

Às Comissões.

Às instituições parceiras.

Aos educadores.

Aos estudantes.

Aos artistas.

Aos poetas

Aos escritores.

Aos pesquisadores.

Aos colaboradores.

Aos amigos da AGRAL.

E a todos aqueles que, em algum momento, caminharam conosco durante o biênio 2025-2026.

Cada presença deixou uma marca.

Cada contribuição acrescentou uma linha à história que construímos juntos.

E, acima de tudo, desejo que a Academia Grapiúna de Artes e Letras permaneça.

Que permaneça não apenas como nome ou instituição formal, mas como uma Casa viva de pensamento, criação, memória, conhecimento e encontro.

Que as futuras gerações de confrades e confreiras recebam aquilo que lhes entregarmos, cuidem com responsabilidade desse patrimônio e tenham liberdade, sabedoria e coragem para acrescentar aquilo que o seu próprio tempo lhes exigir.

Quando olho para a AGRAL, penso em uma história iniciada em 4 de abril de 2011, mas que não pertence apenas a 2011, nem a 2025, nem a 2026.

Ela pertence também aos anos que ainda virão.

Nós somos apenas parte dessa trajetória.

Recebemos uma história.

Tivemos a honra e a responsabilidade de cuidar dela durante determinado tempo.

E chegará o momento de entregá-la para que outros continuem.

Talvez seja esse o sentido mais profundo de servir a uma instituição: receber com gratidão, cuidar com responsabilidade e entregar com generosidade.

É assim que desejo concluir esta entrevista.

Não colocando um ponto final na história da gestão, mas reconhecendo que, na história de uma instituição, cada encerramento deve também abrir espaço para uma continuidade.

Que a AGRAL permaneça.
Que continue crescendo.
Que continue criando.
Que continue preservando.
Que continue reunindo pessoas em torno das artes, das letras, da cultura, da memória e do conhecimento.

E que nunca perca a consciência de suas raízes nem a capacidade de imaginar o seu futuro.