Notícia

A COR DA CONSCIÊNCIA

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Ruy Póvoas

O adjetivo é uma categoria gramatical que se refere ao substantivo. Através dele, os usuários do idioma atribuem qualidade ao seres, seja ela essencial ou explicativa. E porque o idioma é uma construção da psique humana, resultante de sua escalada na face da terra, é justamente no seu uso que se manifestam as particularidades das diferentes culturas que o imaginário conseguiu construir.

O uso do idioma português pela gente brasileira revela um gosto exacerbado pela qualificação. No universo masculino, por exemplo, a mulher é gostosa, a partida de futebol é de lascar, o sambão é uma coisa de doido, a cerveja é divina e tem de ser gelada. E de tanto qualificar o que é concreto, estendemos as restrições e explicações para o que é abstrato. Até Deus é qualificado e com muitos adjetivos que repassam para o divino atributos essencialmente humanos.

Dentre outras particularidades do povo brasileiro, a mistura de etnias é uma determinante. Por causa das relações socioeconômicas, a tonalidade da cultura dominante sempre tem sido branca. É provável que, por isso mesmo, nunca tenha sido preciso qualificar a consciência da cultura oficial como branca. Na vida dos homens e na ordem natural das coisas, no entanto, tudo tem seu dia. E um conjunto de fatores que perfazem estes tempos da nossa pós-modernidade traz à tona, de maneira contundente, a questão afrodescendente do brasileiro. Se nunca foi necessário falar-se em uma consciência branca, agora fala-se de uma consciência negra. E o adjetivo se levanta como alavanca mestra de nossas frases, na ânsia de transbordar os conteúdos semânticos de nossa agonia afônica.

Evidentemente, há riscos. O modismo, o oba-oba, a falação, a politicagem que, disfarçadamente, afirma uma luta em favor dos oprimidos. Os discursos em prol da adjetivação da consciência nunca foram tão fartos. As igrejas, os partidos políticos, os clubes de serviço, as associações de bairro, as entidades carnavalescas, a imprensa falada, escrita e televisiva, as escolas, os pesquisadores, tudo isso toma um porre de falas a favor da consciência, agora adjetivada como negra. Se a época da restrição da fala foi perigosa, a enxurrada de discursos pode comprometer a causa, pois corre-se o risco da banalidade, do discurso que é meramente falatório vazio e repetitivo.

Por isso, é preciso muito cuidado. Caso contrário, poderemos fazer o que fizemos com o dia do índio, no qual as escolas vestiam – e muitas ainda vestem – suas criancinhas com penachos, colam tirinhas de esparadrapo colorido no rosto e lá vamos nós “valorizando” o índio. É preciso ter em mente que a adjetivação desnecessária banaliza o substantivo e sua essência fica ofuscada. Flaubert, exemplo de escritor francês, tinha crises apopléticas quando não conseguia atinar num substantivo que não necessitasse de adjetivo, por meio do qual ele pudesse expor os conteúdos que imaginava essenciais.

Na verdade, a tomada de consciência, no caso específico do brasileiro, para exercer a plenitude da cidadania, implica abordar também questões de etnia. Jamais, porém, será necessário que a consciência se torne negra, branca, parda, vermelha, ou assuma um outro colorido qualquer, para que se torne realmente consciência. Certamente, para quem conhece seu lugar no mundo e se sente gente do jeito que o Universo o chamou a estar na existência, entende o seu entorno, sua ancestralidade e os desvãos da trajetória de seu povo. Não é necessário, no entanto, para isso, colorir sua consciência. Ao contrário, quanto mais translúcida e cristalina a consciência, mais humano é o seu portador, mais evoluída é a sociedade que a construiu.

É necessário cuidado com as ciladas, os equívocos, as fantasias. É realmente preocupante imaginar que a Universidade, na construção de uma consciência dita negra, é a solução para todos os desvios construídos pelos brasileiros em sua escalada, enquanto povo. Se ela fosse realmente a panacéia que muitos imaginam, todos os brasileiros brancos teriam educação, moradia, trabalho e lazer garantidos. E isso está muito longe de ser verdade. É certo que a Universidade tem como resolver algumas questões. Algumas, apenas algumas. Aliás, ela mesma já é uma grande questão: carente de verbas e de recursos, nem sabe ainda como escapar de sua infeliz sina de repetir o saber. Já seria um excelente trabalho, se a Universidade começasse a ensinar a todos que, apesar da enorme gama da variação étnica do brasileiro, a consciência não tem cor, tal qual o espírito, a verdade, a justiça e a dignidade. Tais valores são expressos em substantivos que não necessitam da muleta do adjetivo. Não se restringe, nem se explica tais nomes, porque sua essência resplandece como valores máximos construídos pelos humanos, em sua trajetória sobre a Terra.

Itabuna, 20/11/2004
Ruy Póvoas
Babalorixá, professor, escritor d poeta.
Membro da Academia de Letras de Ilhéus e da Academia de Lettas de Itabuna.
(Esses dizeres foram escritos há 21 anos.)