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Paloma Amado emociona público em tarde dedicada às mulheres de Jorge Amado na Academia de Letras de Ilhéus

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Encontro integrou a programação do Agosto de Jorge e reuniu acadêmicos, escritores, artistas e comunidade em uma conversa marcada por literatura, memória e reflexões sobre a condição feminina

Na tarde de sexta-feira, 14 de agosto, a Academia de Letras de Ilhéus recebeu a escritora Paloma Jorge Amado para uma tarde de conversa em torno do tema “A mulher em Jorge Amado”, como parte da programação do Agosto de Jorge 2026. Diante de uma plateia formada majoritariamente por mulheres, o encontro percorreu personagens femininas da obra amadiana e ganhou contornos particularmente emocionantes quando a convidada trouxe à conversa lembranças de sua mãe, a escritora Zélia Gattai.

A presidente da Academia de Letras de Ilhéus, Luh Oliveira, abriu o encontro dando as boas-vindas à convidada e ressaltando o significado especial de recebê-la naquela Casa. Jorge Amado foi fundador da Cadeira nº 13 da Academia e, posteriormente, a mesma cadeira foi ocupada por Zélia Gattai. Assim, a chegada de Paloma representava também um reencontro simbólico entre a memória de sua família e uma instituição da qual seus pais fizeram parte.

Para compor a mesa, foram convidados a confreira e secretária municipal de Cultura, Anarleide Menezes, e o professor Ramayana Vargens, que deram início às reflexões da tarde.

As mulheres de Jorge Amado

Em sua fala, Ramayana Vargens percorreu algumas das grandes personagens femininas criadas por Jorge Amado, entre elas Gabriela, Dona Flor, Tieta e Tereza Batista, destacando a força e a diversidade das mulheres que atravessam a obra do escritor.

Um dos pontos abordados foi Gabriela, cravo e canela, romance publicado em 1958, cuja narrativa oferece um retrato das transformações sociais de Ilhéus nas primeiras décadas do século XX.

A discussão chamou atenção para um aspecto especialmente atual da obra. No início do romance, Sinhazinha Guedes Mendonça e seu amante são assassinados pelo coronel Jesuíno Mendonça, marido de Sinhazinha. O crime acontece em uma sociedade na qual a violência contra a mulher encontrava respaldo cultural na ideia de que o homem poderia defender sua honra diante do adultério. Ao final da narrativa, entretanto, Jesuíno é levado a julgamento e condenado.

A passagem permitiu aproximar uma obra publicada há quase sete décadas de uma discussão que permanece dolorosamente contemporânea: a violência contra as mulheres e o feminicídio. Jorge Amado, ao narrar as mudanças daquela Ilhéus, registrava também a lenta transformação dos costumes e das relações de poder que determinavam o destino feminino.

Quando Paloma falou de Zélia

Ao tomar a palavra, Paloma Amado trouxe novas perspectivas para a leitura das personagens femininas criadas por seu pai. Entre suas observações, chamou atenção para o fato de muitas das grandes protagonistas amadianas não serem apresentadas fundamentalmente a partir da maternidade.

A reflexão levou a uma discussão sobre a maneira como, historicamente, a identidade da mulher muitas vezes passou a ser reduzida à condição de mãe, fazendo com que outras dimensões de sua existência, seus desejos, escolhas, conflitos e individualidade, fossem colocadas em segundo plano.

Foi nesse momento que literatura e memória familiar se encontraram de maneira particularmente comovente.

Paloma recordou um episódio doloroso vivido por Zélia Gattai em uma época na qual não existia o divórcio nos moldes atuais e a mulher desquitada carregava forte condenação social. Ao falar das dificuldades enfrentadas por sua mãe em relação ao filho de seu primeiro casamento e do peso moral imposto às mulheres separadas naquele período, Paloma se emocionou.

A emoção alcançou também a plateia.

A lembrança de Zélia fez com que a discussão deixasse, por alguns instantes, as páginas dos romances e alcançasse a vida concreta das mulheres de uma geração. As personagens de Jorge Amado e as experiências narradas por Paloma pareciam conversar através do tempo, revelando quanto a literatura pode preservar não apenas histórias, mas também as marcas sociais de uma época.

Outras vozes se juntam à conversa

Durante o encontro, a vice-prefeita de Ilhéus, Vanessa Gedeon, chegou à Academia e foi convidada a integrar a mesa, contribuindo para a discussão com considerações sobre as políticas públicas voltadas às mulheres no município.

Também esteve presente o acadêmico e ex-prefeito de Ilhéus Jabes Ribeiro, que recordou aspectos da história da Casa de Jorge Amado e de sua abertura ao público durante sua gestão, estabelecendo outra ponte entre a memória do escritor e a preservação do patrimônio cultural da cidade.

O confrade José Nazal, memorialista e profundo conhecedor da história de Ilhéus, registrou fotograficamente o encontro e participou com depoimentos e lembranças. Sua presença acrescentou à tarde o olhar de quem, há décadas, documenta as transformações da cidade por meio da fotografia e da pesquisa histórica.

Entre os membros da Academia presentes estavam ainda as confreiras Baísa Nora e Cátia Hughes, além de outros representantes da literatura, das artes, da educação e da sociedade ilheense.

A participação do público também ajudou a transformar a atividade em uma verdadeira roda de memória e reflexão. Entre os depoimentos, destacou-se a fala da professora Ângela Márcia, em um momento de grande sensibilidade que se somou às muitas vozes femininas daquela tarde.

“Estou entre meus conterrâneos”

Paloma lembrou ainda sua condição de Cidadã Ilheense, título que recebeu em 2016, e falou do sentimento de acolhimento ao retornar à Academia. Ali, afirmou sentir-se entre seus conterrâneos.

A declaração ganhou significado particular dentro daquele espaço. Não se tratava apenas da filha de Jorge Amado visitando uma instituição literária de Ilhéus. Paloma estava em uma Casa à qual sua própria história familiar está profundamente ligada.

Jorge Amado foi fundador da Cadeira nº 13 da Academia de Letras de Ilhéus. Após sua morte, Zélia Gattai foi eleita para ocupar a mesma cadeira, tomando posse em 2002. Pai e mãe de Paloma pertencem, portanto, à memória acadêmica daquela instituição.

Entre livros de Jorge Amado e Zélia Gattai, frutos e folhas de cacau que ornamentavam a mesa e remetiam à terra que atravessou tantas páginas da literatura amadiana, a tarde prosseguiu em clima de conversa e acolhimento. Um café acompanhado de chocolate, sequilhos e salgados completou a recepção aos convidados.

Ao final do encontro, o escritor Alaboji pediu a palavra para oferecer uma prece em forma de canção, inspirada na tradição de matriz africana. Seu cântico, recebido em silêncio e emoção pelos presentes, deu ao encerramento um tom de espiritualidade e comunhão, como se a palavra, depois de tantas histórias e memórias compartilhadas, encontrasse na música sua última morada naquela tarde.

Foi assim, entre literatura, memória e canto, que se encerrou o encontro na Academia de Letras de Ilhéus.

Mais do que uma homenagem, o encontro reafirmou uma vocação importante da Academia de Letras de Ilhéus: manter viva a literatura não apenas pela celebração de seus autores, mas pela leitura, pelo debate e pela possibilidade de olhar novamente para suas obras a partir das questões do presente.

Naquela sexta-feira, falar das mulheres de Jorge Amado significou falar de Gabriela, Tieta, Dona Flor, Tereza Batista e Sinhazinha, mas significou também falar de Zélia, de Paloma e das mulheres que estavam sentadas naquela plateia.

Entre ficção e memória, passado e presente encontraram-se por algumas horas na  Casa de Abel. E talvez tenha sido justamente essa a imagem mais bonita da tarde: Paloma Amado, filha de dois antigos membros da Academia, falando de mulheres e de liberdade em uma Casa que também guarda a memória de Jorge e Zélia.